Começa na tarde desta quarta-feira, 24 de agosto, o XI Congresso Nacional de Operadoras Filantrópicas de Planos de Saúde e o 38º Encontro Catarinense de Hospitais, em Florianópolis (SC). Os eventos devem reunir autoridades e especialistas para debater o tema central “Como potencializar resultados na Saude em tempos de crise”. Entre os assuntos que serão discutidos, está a gestão de risco na operação de planos de saúde, que terá o diretor Executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), José Cechin, como palestrante, no dia 25 de agosto, às 14h, na Sala Arvoredo.

Em entrevista à CMB/Rede Saúde Filantrópica (RSF), Cechin afirmou que a gestão de riscos é importante para todos os setores da economia e especialmente assim para os segmentos e subsegmentos da saúde suplementar, independentemente da área de atuação. É algo básico de administração e economia e primordial à sobrevivência das operações.

Ele explicou que a gestão de risco envolve um conjunto de ações, a começar pela identificação das situações que possam comprometer a sustentabilidade econômico-financeira ou da qualidade do atendimento. “Na precificação, os riscos são relativos à previsão da epidemiologia, da tecnologia, da estrutura etária da população alvo do plano, entre outros. Mas há também riscos comportamentais (como o mau uso do plano ou as fraudes tanto do consumidor quanto do prestador, indicações não baseadas nas melhores evidências); riscos próprios dos procedimentos que podem afetar solidariamente a operadora; riscos econômicos ligados às variações da atividade, das rendas, do emprego”, disse, ressaltando que também há riscos ligados às variações das despesas, que são tanto maiores quanto menor for o número de beneficiários da carteira. “Gerenciar riscos é conhecer todos eles e ter ações para mitigá-los, isto é, para reduzir a chance de ocorrerem, e para ações remediativas caso ocorram”, lembrou.

A sustentabilidade das operadoras, por sua vez, passa pela sustentabilidade do sistema de forma geral, segundo Cechin. “Não é somente a sustentabilidade das operadoras que está em risco, pois essas podem mudar de ramo se o ambiente não é propício aos negócios. O que está em debate hoje é a sustentabilidade do sistema de saúde suplementar, e não mais no longo prazo. Os prazos para solucionar os gargalos do setor se reduziram”, afirmou. Para ele, o grande risco está ligado à capacidade regulatória ou gerencial de as receitas acompanharem os custos. “Caso as primeiras cresçam em ritmo mais acelerado, os ganhos das operadoras cresceriam e isso, em mercado competitivo atrairia novos entrantes forçando o preço para seu nível de equilíbrio. No entanto, se as receitas crescerem menos do que os custos, não há mecanismo automático de ajuste – a empresa se descapitaliza, a qualidade do atendimento sofre e a persistir essa situação, a empresa caminha para a insolvência. Por isso, a solução mais adequada pode ser conseguida pelas forças de mercado, desde que se cuide da concorrência”.

Ele ressalta, porém, que o importante é que a regulação não sucumba às tentações de controlar preços ou reajustes. “Há, sim, que se combater desperdícios, a má gestão dos recursos e as más práticas - questões extremamente sensíveis”, alegou, ressaltando que os custos assistenciais em alta são os problemas mais agudos. “É preciso alterar, por exemplo, modelos de remuneração dos prestadores de serviço – priorizando a eficiência nos resultados –, introduzir critérios mais rígidos para utilização dos recursos de saúde e regras mais racionais para incorporação tecnológica. Há muita margem ainda para corrigir imperfeições de gestão na cadeia de saúde”. Segundo ele, dados do Ministério da Saúde mostram que o brasileiro paga mais caro por equipamentos do que as populações de alguns países ricos, com renda média mais alta. Um levantamento da FenaSaúde revelou, por exemplo, que um marca-passo pode custar R$ 20.523,06, no Brasil, e R$ 3.518,98, na Alemanha, para produtos com a mesma especificação.

Cechin acredita, ainda, que não há como equilibrar contas gastando-se mais do que se tem. “Os recursos da saúde são finitos. Questões como desperdícios, má gestão dos recursos e más práticas são extremamente sensíveis e afetam a inflação médica, que atinge patamares muito acima dos indicadores que medem os demais preços da economia. Se esses aspectos forem desprezados, a situação só vai piorar. E as distorções, atualmente, não são inexpressivas”. Um exemplo seria a prótese de joelho, que sai de fábrica por R$ 2.096, mas após o implante no paciente – sem contar gastos com internação e atendimento médico –, pode chegar a custar ao plano de saúde R$ 18.362.

“O exame da apropriação de ganhos na cadeia distribuidora é fundamental, inclusive para se assegurar que prevaleça a concorrência nos mercados distribuidores”, afirmou Cechin. Para ele, a diferença entre preço de fábrica e instalado no paciente revela grande distorção na cadeia distribuidora. Da mesma forma, a diferença de preços para um mesmo material entre diferentes regiões. “A compor a escalada dos custos deve-se ainda citar os aumentos dos preções dos materiais e dispositivos médicos implantáveis. Como exemplo, pode-se citar a variação de preço de apenas um item médico, entre dezembro de 2007 e dezembro 2015: o ‘equipo bomba de infusão’, material usado em ambulâncias e UTIs para administrar fármacos. Em dezembro de 2007, esse equipamento custava R$ 145,04, saltando para R$ 1.150,41, em dezembro de 2015 – uma alta significativa de 693,2% contra um IPCA de apenas 64,5%, no mesmo período”, explicou.

Para o diretor, também deve-se levar em consideração o impacto do envelhecimento. Cechin, que foi ministro da Previdência no governo Fernando Henrique Cardoso, reforçou que, com a idade passam a prevalecer a doenças crônicas, com as pessoas demandando mais assistência. “A participação de beneficiários de planos de assistência médica com 60 anos ou mais idade passou de 11,1%, em dezembro de 2005, para 12,3%, em dezembro de 2015 – aumento de 1,2 ponto percentual. Por outro lado, a participação de consumidores com idades entre zero e 19 anos passou de 28,3% para 25,4%, na mesa base de comparação, com redução de 2,9 pontos percentuais. Em dezembro de 2000, para cada beneficiário com 60 anos ou mais de idade, havia 3 com idades entre 0 e 19 anos. Atualmente, essa proporção é de 2 para 1. O fenômeno afeta o equilíbrio intergeracional, com cada vez menos jovens em idade ativa financiando os tratamentos daqueles que se tornam inativos, por isso incapazes de contribuir de forma compatível com as despesas que geram”, comentou.

Além disso, há a questão dos avanços tecnológicos, que encarecem a operação em saúde, ao contrário de outros segmentos. “O que se devem ter na mesa é que toda a cadeia de Saúde precisa ser remunerada, mas de forma equilibrada e justa. E os beneficiários dos planos, por sua vez, devem ser atendidos em seus direitos, mas respeitando-se os contratos e a legislação setorial”, afirmou.

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