Em cinco anos, cerca de 2,7 milhões de pessoas cancelaram contratos privados
Queila Ariadne

Nos últimos cinco anos, 2,7 milhões de pessoas deixaram de ter plano de saúde no Brasil, sendo aproximadamente 400 mil só em Minas Gerais, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Um estudo feito pela Mercadológica para o jornal O TEMPO mostra que esse encolhimento é mais um efeito colateral do desemprego. De acordo com o levantamento, 21,5% da população mineira tinha um plano privado, mas cancelou. Agora, quando precisam de atendimento médico, os postos de saúde e hospitais públicos são a opção para 81,4%.

É exatamente a esses estabelecimentos que a publicitária Élika Maria Lopes, 25, tem recorrido desde 2016. “Quando saí da empresa que pagava o plano, resolvi que não teria mais, pois, além da mensalidade do plano individual ser alta, ainda tem a coparticipação, que é muito cara. Por isso, tenho usado o Sistema Único de Saúde (SUS) em caso de emergência”, conta Élika. Segundo o Ministério da Saúde, o sistema tem hoje 160 milhões de usuários.

Mas nem sempre Élika consegue conciliar sua agenda de trabalho com a disponibilidade do sistema público. Por isso, o volume de exames médicos de rotina caiu nos últimos anos. “Para atendimentos mais simples, eu consigo ir ao posto. Mas, para marcar exames no SUS, nem sempre dá para ir nos horários que eles marcam, pois eu teria que faltar no trabalho”, explica.

Sobrevida menor. O desemprego é a principal causa para a desistência do plano. Segundo a pesquisa, 35% dos entrevistados cancelaram porque saíram da empresa que pagava pelo serviço: 19,6% precisaram cortar gastos, e, para 14,3%, o motivo foi a perda do próprio emprego ou do cônjuge.

Na avaliação do professor de economia do Ibmec Felipe Leroy, a migração de beneficiários de planos privados para o SUS mostra uma falha no desenho da política pública de saúde que afetará diretamente a sobrevida das pessoas. “As famílias já não têm mais condições de pagar planos, e o SUS fica sobrecarregado. Ao mesmo tempo, não conseguem ir ao médico com a mesma frequência e não fazem um atendimento preventivo. Também já não têm mais dinheiro para manter uma alimentação saudável, e isso reduz a qualidade de vida. Com tudo isso, a sobrevida, que é o tempo que a pessoa vive em média após a aposentadoria, vai diminuir”, avalia o economista. Segundo ele, a sobrevida hoje é de 17 anos para os homens, que se aposentam aos 65, e de 22 anos para as mulheres, que se aposentam a partir dos 60.

Leroy destaca ainda que o movimento contraditório da falta de dinheiro para a prevenção vai mudar o sistema de atendimento, fortalecendo o nicho das clínicas populares. “A maioria das clínicas depende das operadoras. Com a queda dos beneficiários de planos, a receita cai, e o modelo de negócio mais promissor é cobrar preços mais acessíveis por consultas”, ressalta o professor.

Reflexos. O estudo da Mercadológica revela que 55% dos entrevistados cancelaram o plano de saúde nos últimos cinco anos, fortemente influenciados pela crise econômica.

Fonte: O Tempo (MG)