O economista de saúde do Banco Mundial, André Medici, abriu os trabalhos do XIII Congresso Nacional das Operadoras Filantrópicas de Planos de Saúde na tarde desta quarta-feira (25), analisando o cenário mercadológico da Saúde no Brasil. De acordo com ele, é preciso melhorar a participação pública no investimento de Saúde. No Brasil, 8,8% dos gastos do governo federal é com Saúde, sendo o setor a menor participação no orçamento global.

Medici explicou que é preciso estar preparado não apenas para o envelhecimento da população, que traz fatores indutores de demandas, mas também para os marcadores epidemiológicos, com gastos globais crescentes de 4,1% até 2021, depois de aumentar apenas 1,3% de 2012 a 2016, além dos casos de demência/Alzeimer, que devem dobrar no mesmo período.

Os fatores indutores de mercado, por sua vez, ele ressaltou que a integração deve substituir a verticalização, com integração clínica e financeira; coordenação e integração do cuidado; e integração das equipes multidisciplinares. “É preciso ter bons acordos e parcerias com a equipe clínica. Não interessa se o prestador está na rede credenciada, mas se funciona melhor e com custos mais reduzidos”, disse. Além disso, Medici afirmou que, mesmo que haja uma tendência de aumento do gasto público, dada a crise econômica, isso não impede que haja um incremento da parceria público-privada na saúde.

Para ele, o importante é ter o foco centrado no paciente, buscando um conceito de valor, que vai representar melhor cuidado, com melhor saúde e menor custo, com base na qualidade. Nesse sentido, ele reforçou que os modelos de pagamento da Saúde precisam ser revistos, uma vez que a remuneração foi baseada, no século XX, no salário e, por isso, focava na produção de serviços. “Mas, hoje, precisamos estar baseados em valor (valued based) também na remuneração”, insistiu.
Quanto às inovações tecnológicas, o mercado está cada vez mais dependente de inovações, com ciclos cada vez mais rápidos, mas, segundo o palestrante, a tecnologia não é mais um causador de custos na Saúde, já que ela é necessária e bem aplicada.

Perspectivas brasileiras
Em relação aos dados do Brasil, especificamente, Medici disse que a crise econômica começou em 2014, com o contingenciamento de recursos, aumentando o percentual de famílias que custeiam sua própria saúde, além da saúde pública e suplementar. Para ele, essa crise econômica é enfatizada pelo período eleitoral.

O economista disse que há algumas opções para o financiamento da Saúde, como levantar o quanto custa a saúde e garantir recursos para custeá-la; a incentivar a sinergia entre o setor público e suplementar da saúde; o gerenciamento do acesso à tecnologia; e o investimento em promoção à Saúde, prevenção de doenças e diagnóstico precoce.

Com a participação do presidente da ANS, Leandro Fonseca, durante o debate, André Medici questionou as ações da Agência em relação à experiência da atenção primária nas operadoras. Segundo Leandro Fonseca, as questões da atenção primária foram tema de consulta pública, encerrada na semana passada. As sugestões ainda estão em discussão pela Diretoria Colegiada. “Muitos problemas de saúde podem ser resolvidos na atenção primária. É um desafio de atenção à saúde e será um passo importante no cenário da crise”, disse.

Medici ressaltou que atenção primária está ligada a qualquer tipo de rede, de processo, de organização de serviço de saúde. Para ele, o que é importante no caso da atenção primária é que ela faz promoção, prevenção e acompanha a fidelização do paciente ao longo prazo, ela reduz os custos mais altos no futuro, que são a internação, os exames desnecessários, uma série de coisas específicas que fazem com que os pacientes passem a utilizar recursos de alto custo dentro do sistema. “O que é importante nesse caso, é a revisão do perfil de risco da população ao longo do tempo. Se você reduz o risco, reduz o custo e tem uma população mais saudável que permite que se tenha mais excedente e mais possibilidade de reduzir o valor do plano no futuro”, explicou.

Ele ressaltou, ainda, a necessidade de mudar o modelo de remuneração, que deve sair do pagamento por serviços e passar a resultados. “Para fazer um plano de atenção primária, é preciso vincular os resultados ao pagamento. Se o pagamento continua sendo baseado em quantidade, em volume, unidade de serviço, esse modelo de remuneração não é compatível com o crescimento da atenção primária. É possível dar incentivo: paga mais ao médico da atenção primária, mas continua pagando por volume, porque não consegue vincular ao resultado assistencial. Essa é a grande transformação. E elas precisam acontecer em paralelo. E esse gargalo deve ser tratado pelos próximos governos”, afirmou.